Decretar, Exigir, Determinar, Reivindicar: Que Doutrina Estranha é Essa?
“E tudo quanto pedirdes em meu nome, isso
farei, a fim de que o Pai seja glorificado no Filho. Se pedirdes alguma coisa
em meu nome, eu o farei.” – (João 14:13-14)
O presente estudo surge como resultado de um debate desencadeado por uma postagem em um grupo de WhatsApp, no qual se discutiu o significado da expressão “pedir em meu nome” em João 14:13–14 e suas implicações teológicas e pastorais. No âmbito dessa discussão, um texto de
minha autoria, intitulado Tudo
quanto pedirdes em meu nome, isso farei, foi citado em contraponto a postagem feita
por um dos membros do grupo, o que acabou gerando interpretações distintas
sobre o tema. Diante dessas divergências, especialmente aquelas associadas ao
ensino da confissão positiva, senti-me na necessidade de organizar de forma mais
ampla, clara, bíblica e metodologicamente consistente alguns argumentos exegéticos e teológicos, não com espírito beligerante de promover polêmica, disputa ou revanchismo pessoal, mas com o propósito de estimular reflexão e discernimento doutrinário.
Posto isso,
devo dizer que a interpretação de que o verbo “pedir” nesses
textos significa “decretar, exigir, determinar ou reivindicar” não se sustenta
quando lemos a Bíblia com atenção ao contexto, à língua original e à teologia
geral das Escrituras. Essa leitura equivocada foi sistematizada e amplamente
divulgada por Kenneth E. Hagin, especialmente em sua obra O Nome de Jesus,
na qual ele desenvolve a ideia de que orar em nome de Cristo implica exercer
autoridade espiritual de forma declarativa, quase imperativa, como se o crente
pudesse exigir resultados de Deus com base nessa fórmula. Esse entendimento
acabou se tornando um dos pilares do chamado movimento da confissão positiva ou
Palavra da Fé, mas produz uma doutrina que desloca o centro da fé de Deus para
o ser humano, atribuindo ao crente uma autoridade quase soberana sobre a
realidade. Isso é teologicamente problemático e espiritualmente perigoso.
Historicamente, porém, as origens dessa teologia
remontam muito além de Hagin. O pastor Essek William Kenyon (1867–1948), um
metodista norte-americano que mesclou conceitos do chamado Movimento do Novo
Pensamento com elementos do cristianismo pentecostal, é amplamente reconhecido
como o verdadeiro precursor da confissão positiva. Suas ideias sobre o poder
criativo das palavras, a autoridade espiritual do crente e a relação entre fé e
realidade material exerceram profunda influência sobre os ensinos
posteriormente sistematizados por Hagin e difundidos por outros líderes do
movimento Palavra da Fé, como Kenneth Copeland e Benny Hinn. Essa genealogia
histórica ajuda a explicar por que essa teologia apresenta traços mais próximos
de correntes filosófico-metafísicas do que da tradição cristã clássica.
No texto grego de João 14:13–14, o verbo usado é aiteō,
que significa pedir, solicitar, suplicar. É o mesmo verbo empregado quando
Jesus ensina a oração do Pai Nosso: “O pão nosso de cada dia dá-nos hoje”
(Mateus 6:11), e quando Ele afirma: “Pedi, e dar-se-vos-á” (Mateus 7:7).
O sentido básico do verbo é o de alguém que se aproxima em dependência e
humildade de quem possui autoridade para conceder. Não há no termo qualquer
ideia de comando soberano, decreto criativo ou exigência legal. Quando o Novo
Testamento deseja expressar o ato de ordenar ou mandar, recorre a outros
verbos, como epitassō (ordenar) ou keleuō (mandar), usados,
por exemplo, quando Jesus ordena aos espíritos imundos (Marcos 1:27) ou quando
uma autoridade humana emite comandos. Esses verbos simplesmente não aparecem em
João 14:13–14, o que torna linguisticamente injustificável a leitura proposta
por Hagin.
Outro ponto a ser observado é que o contexto
imediato do discurso de Jesus em João 13–17 é profundamente pastoral,
relacional e cristocêntrico. Jesus está preparando os discípulos para Sua
ausência física, ensinando-os a permanecerem n’Ele, a confiarem no Pai e a
dependerem da obra do Espírito Santo. Logo após falar sobre pedir em Seu nome,
Ele declara: “Se me amais, guardareis os meus mandamentos” (João 14:15)
e promete o Consolador (João 14:16–17). O tom dominante é o da obediência
amorosa e da comunhão, não o da autonomia espiritual. Interpretar “pedir” como
“decretar, exigir, determinar, reivindicar” rompe a harmonia do próprio
discurso de Jesus e cria uma teologia estranha ao fluxo do texto.
Pedir “em nome de Jesus” também não é uma fórmula
mística que converte desejos humanos em decretos divinos. Na linguagem bíblica,
agir ou pedir em nome de alguém significa representar essa pessoa, agir em
conformidade com seu caráter, sua vontade e seus propósitos. Por isso, o
apóstolo João esclarece: “E esta é a confiança que temos nele: que, se
pedirmos alguma coisa segundo a sua vontade, ele nos ouve” (1 João 5:14). A
oração cristã verdadeira não submete Deus à vontade do homem, mas submete o
homem à vontade de Deus. O próprio Jesus, no momento mais intenso de Sua
angústia, ora: “Todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres”
(Mateus 26:39), mostrando que a oração perfeita não é a imposição da vontade,
mas a rendição confiante.
A ideia de decretar coisas sobre Deus ou sobre a
realidade cria uma inversão grave da relação entre Criador e criatura. Na
Escritura, quem decreta é Deus: “O Senhor dos Exércitos o determinou; quem,
pois, o invalidará?” (Isaías 14:27). O ser humano responde com fé,
arrependimento, obediência e oração, mas jamais governa a vontade divina. Jó
reconhece essa assimetria ao declarar: “Bem sei que tudo podes, e nenhum dos
teus planos pode ser frustrado” (Jó 42:2). Paulo reforça o mesmo princípio
ao perguntar: “Quem conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi seu
conselheiro?” (Romanos 11:34).
No Brasil, essa teologia encontrou terreno fértil
sobretudo a partir das décadas finais do século XX. Além de R. R. Soares e Edir
Macedo, outros líderes tiveram papel significativo na sua difusão. Destaca-se
Valnice Milhomens Coelho, que estudou na Escola Bíblica Rhema, ligada ao
ministério de Hagin, e ao retornar ao Brasil fundou o Ministério Palavra da Fé,
influenciando igrejas, conferências e materiais de ensino. Pastores como Jorge Tadeu,
associado às igrejas Maná, Cássio Colombo, do ministério Cristo Salva, e Miguel
Ângelo da Silva Ferreira, da Igreja Evangélica Cristo Vive, no Rio de Janeiro,
também contribuíram para a circulação e consolidação desses ensinos no cenário
neopentecostal brasileiro, incorporando a lógica da autoridade declarativa e da
confissão positiva em seus ministérios.
A teologia da confissão positiva tende a usar
textos isolados e a negligenciar o ensino bíblico sobre sofrimento, provação e
a pedagogia de Deus na dor. A Bíblia apresenta homens e mulheres piedosos que
pediram intensamente e não receberam aquilo que desejavam, mas foram
transformados espiritualmente nesse processo. Paulo rogou para que o espinho na
carne fosse removido, e ouviu do Senhor: “A minha graça te basta” (2
Coríntios 12:7–9). Jesus afirmou claramente que no mundo teríamos aflições
(João 16:33). Tiago adverte que muitos não recebem porque pedem mal, com
motivações egoístas (Tiago 4:3). Tudo isso contradiz frontalmente a noção de
que basta “decretar, exigir, determinar, reivindicar” algo para que Deus seja
obrigado a cumprir.
Há também um impacto pastoral sério. Quando se
ensina que o crente pode determinar sua realidade por meio de palavras e
decretos, o sofrimento passa a ser interpretado como fracasso espiritual, falta
de fé ou erro na confissão. Isso gera culpa, medo e uma espiritualidade baseada
em desempenho. A Escritura, porém, convida o crente a lançar sobre Deus toda a
ansiedade, porque Ele cuida de nós (1 Pedro 5:7), e a confiar em Sua sabedoria
mesmo quando o caminho é obscuro (Provérbios 3:5–6; Romanos 8:28).
A oração bíblica é ousada, mas sempre humilde.
Jesus nos incentiva a pedir, mas também a buscar primeiro o Reino de Deus e a
sua justiça (Mateus 6:33). Paulo orienta que apresentemos nossas petições com
ações de graças, reconhecendo a soberania divina (Filipenses 4:6). A oração não
é um mecanismo de controle da realidade, mas um meio de comunhão com Deus e
participação consciente em Sua vontade redentora.
Chegando ao final deste breve estudo, posso afirmar categoricamente que “pedir” em João 14:13 não significa “decretar, exigir, determinar,
reivindicar” e é uma leitura linguisticamente equivocada e teologicamente
distorcida. Ela transforma o crente em um pequeno soberano e reduz Deus a um
executor de decretos humanos. A fé cristã bíblica e histórica sempre confessou
que Deus é Senhor, nós somos servos, e a oração é expressão de confiança,
dependência e amor. Pedimos com fé, sim, mas sempre com submissão, dizendo com
Cristo: “Seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mateus
6:10).
Com temor e tremor, mas na trincheira da fé,
Bibliografia / Sugestão de
Leitura:
● Bíblia de Estudo
Thompson: Cadeia temática de referências cruzadas – Frank Charles Thompson
● Dicionário Vine
de palavras e expressões do Novo Testamento – W. E. Vine
● Concordância
Exaustiva de Strong: Léxico Hebraico, Aramaico e Grego – James Strong
● Desvios
doutrinários da confissão positiva
● João
14: Estudo Bíblico – Interpretação, Exegese, Comentários
● A
Teologia Da Prosperidade – Sola Scriptura
● Biografia Kenneth E. Hagin – Wikipedia
● Biografia E. W. Kenyon – Wikipedia
Confira também:
● Tudo
quanto pedirdes em meu nome, isso farei
● Tenha fé em Deus e não duvide em seu coração
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a Bíblia
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