Os donos da Igreja
“Apascentai o rebanho de Deus que está
entre vós, não por força, mas voluntariamente; não por torpe ganância, mas de
boa vontade; nem como dominadores dos que vos foram confiados, antes
tornando-vos exemplos do rebanho.” – (1 Pedro 5:2–3)
“Rogamo-vos, irmãos, que reconheçais os
que trabalham entre vós e vos presidem no Senhor… e os tenhais com amor em
grande estima.” – (1 Tessalonicenses 5:12–13)
Este texto vem sendo desenvolvido há um bom tempo, a partir de pedidos
recorrentes de esclarecimento feitos por pessoas que me procuram dentro e fora
do ambiente virtual, trazendo dúvidas sinceras sobre esse tema tão sensível. Confesso que houve relutância de minha parte em escrever sobre
esse assunto, não por falta de convicção bíblica, mas pela consciência das
implicações que tal reflexão inevitavelmente traria. Trata-se de um tema que
costuma ser lido e interpretado a partir de experiências pessoais, dores
acumuladas e posições já assumidas, tanto por líderes quanto por membros, o que
facilmente pode gerar leituras defensivas, reducionistas ou instrumentalizadas.
Ainda assim, o compromisso com a verdade bíblica, com a saúde da Igreja e com
as consciências que sinceramente buscam discernimento falou mais alto do que o
receio das possíveis reações. Muitos desejam compreender melhor à luz das
Escrituras o assunto, discernir situações complexas e agir com responsabilidade
espiritual, sem cometer injustiças nem diante das pessoas, nem diante de Deus.
Reconheço, com humildade, que ao longo da minha caminhada, tanto como membro quanto como pastor de igreja, também já errei, sustentei leituras equivocadas e adotei posturas que, com o tempo, precisei rever à luz da Palavra e da graça de Deus. A proposta não é alimentar
conflitos, mas oferecer orientação bíblica, equilíbrio espiritual e ética
cristã, ajudando consciências a caminharem com temor, verdade, amor e
fidelidade ao evangelho. Este não é um texto destinado a leituras
apressadas nem ao consumo superficial típico das redes sociais, mas àqueles que
desejam alimento sólido, discernimento espiritual e caminhos bíblicos para
lidar com questões complexas da vida comunitária cristã, com maturidade,
responsabilidade e temor diante de Deus.
Essas inquietações, porém, não acontecem de forma isolada. O tema toca numa ferida antiga e recorrente na história do povo de
Deus. Trata-se da confusão entre autoridade espiritual e posse, entre serviço e
controle, entre liderança bíblica e poder humano. A Escritura é clara ao
afirmar que a Igreja pertence a Cristo, pois Ele a comprou “com o seu
próprio sangue” (Atos 20:28). Sempre que alguém, seja líder ou membro, age
como se fosse proprietário da Igreja (Instituição/Comunidade Local), desloca-se
do centro do evangelho para uma lógica estranha ao Reino de Deus (Mateus
20:25–28).
No caso de líderes que abusam do poder,
o problema raramente começa de forma repentina. Geralmente surge de uma leitura
distorcida do ministério pastoral. O Novo Testamento apresenta pastores como
servos, não como senhores (1 Pedro 5:2–3; Mateus 20:26–28). Jesus foi explícito
ao advertir seus discípulos contra o modelo de liderança dominante dos gentios,
dizendo: “entre vós não será assim” (Marcos 10:42–45). A autoridade
cristã é funcional e relacional, nunca absolutista (Lucas 22:25–27). Quando um
pastor concentra decisões, sufoca o conselho da igreja, rejeita qualquer
questionamento e trata discordância como rebeldia, ele se aproxima mais do
modelo dos fariseus, que “atavam fardos pesados” sobre os outros (Mateus
23:4), do que do Cristo que lava os pés dos discípulos (João 13:14–15).
Entretanto, é igualmente necessário
reconhecer que nem todo “fechamento” pastoral nasce de desejo consciente de
domínio. Em muitos contextos, ele é fruto de experiências traumáticas
anteriores, de divisões mal resolvidas, de exposições indevidas ou de feridas
acumuladas ao longo do ministério (Provérbios 27:17; 2 Coríntios 11:28).
Pastores que já sofreram ataques injustos, traições ou abandono podem, sem
perceber, substituir a confiança pelo controle e a escuta pelo isolamento
(Salmos 55:12–14). Isso não justifica práticas autoritárias, mas ajuda a
compreender que o adoecimento pastoral também pode ser resultado de medo,
solidão ministerial e ausência de acompanhamento espiritual (Eclesiastes
4:9–12).
Nesse ponto, torna-se necessário
desfazer uma confusão teológica recorrente: unção espiritual não equivale a
infalibilidade. A Escritura jamais apresenta líderes como acima da correção
(Provérbios 27:5–6; Gálatas 2:11). Moisés, mesmo escolhido por Deus, foi
disciplinado por sua desobediência (Números 20:12); Davi, ungido rei, caiu
gravemente em pecado (2 Samuel 11:1–27); e Pedro, apóstolo, precisou ser
confrontado publicamente por Paulo por incoerência doutrinária (Gálatas
2:11–14). Esses episódios não diminuem a autoridade espiritual, mas a colocam
sob o governo da Palavra, lembrando que toda liderança cristã é responsável
diante de Deus e da comunidade (Tiago 3:1).
Quando essa responsabilidade é
enfraquecida, surgem estruturas que dificultam a correção, o diálogo e a
prestação de contas. Em muitos contextos, líderes recorrem a familiares para
ocupar funções ministeriais e administrativas não por má-fé, mas pela escassez
de obreiros, pela falta de disposição de pessoas em assumir responsabilidades
ou pela urgência de manter a igreja funcionando. Essa realidade é comum,
especialmente em comunidades pequenas ou em fases de transição, e precisa ser
reconhecida com honestidade pastoral.
Soma-se a isso a deficiência na
formação de lideranças, marcada muitas vezes pela ausência de discipulado
pastoral, mentoria e preparo teológico consistente (2 Timóteo 2:2; Tito 1:5).
Muitos líderes são lançados à função sem acompanhamento, pressionados por
expectativas irreais de crescimento numérico, estabilidade financeira e sucesso
ministerial (1 Coríntios 3:1–5). Esse contexto contribui para decisões
centralizadoras e para a confusão entre preservação da obra e preservação do
próprio ministério (Jeremias 17:5).
Entretanto, soluções imediatas para
problemas reais não podem substituir critérios bíblicos duradouros. O que
começa como necessidade pode, sem discernimento, transformar-se em estrutura
permanente, concentrando decisões, visibilidade e autoridade nas mãos de
poucos.
É nesse contexto que a prática de
colocar familiares em funções estratégicas de liderança e administração,
concentrando autoridade, visibilidade e poder — mesmo quando não viola normas
institucionais ou leis civis — levanta sérias questões éticas e espirituais. A
Escritura não condena o trabalho em família, mas denuncia o nepotismo
espiritual, isto é, o uso da Igreja como extensão do poder doméstico (1 Samuel
2:29–30).
Paulo exige que líderes sejam “irrepreensíveis”
e “de boa reputação” (1 Timóteo 3:2,7), o que inclui evitar arranjos
familiares que eliminem a prestação de contas e a correção mútua. A ausência de
pluralidade enfraquece o princípio neotestamentário da colegialidade,
claramente expresso no concílio de Jerusalém, onde decisões foram tomadas
coletivamente pelos apóstolos e presbíteros (Atos 15:6–22).
Esse quadro é
agravado pelo fato de que, a inexistência de processos claros de transição e
sucessão pastoral frequentemente reforça a mentalidade de posse (Números
27:18–20; 2 Timóteo 4:6–7). Quando não há limites bem definidos, nem caminhos
transparentes para continuidade da liderança, o ministério corre o risco de se
confundir com identidade pessoal, e a igreja passa a girar em torno de um nome,
e não do senhorio de Cristo (1 Coríntios 1:12–13).
Contudo, o problema não se limita aos
púlpitos. Há também membros que, por estarem há décadas na igreja, por serem
fundadores da obra ou por contribuírem financeiramente de forma expressiva,
passam a agir como se tivessem direitos especiais sobre a comunidade e sobre a
liderança. Essa mentalidade transforma o dízimo em moeda de influência, quando
biblicamente ele é ato de adoração (Provérbios 3:9) e expressão de gratidão,
não instrumento de barganha. Tiago condena severamente a parcialidade dentro da
igreja, especialmente quando ela favorece os ricos em detrimento dos demais
irmãos (Tiago 2:1–6). A longevidade na fé é motivo de honra, mas nunca de
domínio; Paulo afirma que todos são membros de um mesmo corpo, com funções
diferentes, mas sem hierarquias de valor (1 Coríntios 12:12–26). De modo
semelhante, há também os que chegam de outras denominações e, em vez de
compreenderem e respeitarem a caminhada da igreja local, passam a comparar,
exigir e até impor nela os costumes e práticas do contexto de onde vieram,
confundindo tradição denominacional como se fossem princípios bíblicos
universais.
Há ainda membros sinceros que vivem o
dilema entre submissão e consciência cristã. Muitos permanecem em contextos
adoecidos não por convicção bíblica, mas por medo de errar, de serem taxados
como rebeldes ou de “abandonarem a obra” (Gálatas 1:10; Provérbios 29:25). A
Escritura, porém, jamais apresenta submissão como anulação da responsabilidade
moral (Atos 5:29), nem perseverança como permanência em ambientes que destroem
a fé, a alegria e a saúde espiritual (Salmos 1:1). Discernir quando suportar em
amor e quando confrontar em verdade é um exercício espiritual que exige
maturidade, ensino bíblico e temor de Deus (Provérbios 4:23; Efésios 4:15).
A esse quadro soma-se ainda o silêncio
cúmplice da comunidade. Quando abusos são percebidos, mas não confrontados por
medo, comodismo ou falsa espiritualidade, cria-se um ambiente onde a injustiça
se normaliza. A Escritura adverte que a omissão diante do mal também gera culpa
(Levítico 5:1) e que deixar de agir em favor da verdade é moralmente reprovável
(Provérbios 24:11–12). O corpo de Cristo sofre quando um de seus membros sofre
(1 Coríntios 12:26), inclusive quando esse sofrimento decorre de estruturas
internas adoecidas.
Esse silêncio é frequentemente
alimentado pela ausência de canais seguros de escuta e diálogo (Provérbios
18:13; Tiago 1:19). Quando não existem espaços legítimos para questionamento,
denúncia e aconselhamento, o medo se instala, e muitos preferem calar-se para
evitar retaliações explícitas ou veladas (João 12:42–43). Com o tempo, esse
ambiente corrói não apenas a confiança na liderança, mas também a própria fé de
irmãos que passam a associar Deus às experiências traumáticas vividas na igreja
(Salmos 88:1–9).
Do ponto de vista exegético, é
fundamental lembrar que a palavra “igreja” (ekklesia) nunca designa um
patrimônio privado, mas uma assembleia convocada por Deus. Cristo é o cabeça da
Igreja (Efésios 1:22–23), e todos os demais, sem exceção, são servos. Quando
líderes ou membros se apropriam da igreja, repetem o pecado denunciado pelos
profetas contra os pastores de Israel, que apascentavam a si mesmos e não ao
rebanho (Ezequiel 34:2–4). A leitura cristocêntrica exige que toda liderança
seja interpretada à luz da cruz, onde o poder se manifesta em forma de entrega
(Filipenses 2:5–8).
Outro equívoco recorrente é a
espiritualização indevida de conflitos administrativos. Questões relacionadas à
organização, prestação de contas e decisões coletivas são frequentemente
tratadas como rebeldia espiritual. No entanto, o Novo Testamento distingue
claramente entre pecado doutrinário e divergências administrativas (Atos
15:6–29; Romanos 14:1–4; Tito 3:9). Paulo orienta que tudo seja feito com
ordem (1 Coríntios 14:40), e o próprio modelo apostólico mostra que debate,
escuta e deliberação fazem parte da vida saudável da igreja (Atos 15:1–29).
As consequências desse espírito de
posse são profundas: igrejas adoecem, vocações são sufocadas, conflitos se
multiplicam e muitos se afastam feridos. Jesus advertiu que quem escandaliza os
pequeninos incorre em grave juízo (Mateus 18:6). Nesse sentido, a ausência de
diálogo e de estruturas saudáveis de decisão contradiz a sabedoria bíblica, que
afirma: “na multidão de conselheiros há segurança” (Provérbios 11:14).
Entre esses feridos estão irmãos que
não somente se afastam da instituição, mas perdem o ânimo para orar, ler a Escritura
e confiar novamente em líderes espirituais. Por isso, a reforma da igreja não
pode limitar-se à correção de estruturas; ela precisa incluir processos
intencionais de cuidado, escuta, restauração e cura comunitária (Gálatas 6:1–2;
Tiago 5:16). Sem isso, mudanças administrativas apenas reorganizam o espaço,
mas não restauram corações (Jeremias 6:14).
Entretanto, é necessário cautela para
que a denúncia dos abusos não resulte apenas na substituição de um grupo
dominante por outro. A Escritura mostra que mudanças estruturais sem
transformação espiritual apenas trocam os agentes do poder. Israel rejeitou a
liderança direta de Deus e pediu um rei, mas acabou submetido a um novo tipo de
opressão (1 Samuel 8:6–7). Sem arrependimento e conversão, o espírito de
domínio permanece, apenas assume novas formas.
A solução não está em rebeliões nem em
autoritarismos opostos, mas em arrependimento, retorno às Escrituras e reforma
de práticas. Pastores precisam reaprender a ouvir, a delegar e a prestar
contas, lembrando que darão contas a Deus pelo rebanho (Hebreus 13:17). Da
mesma forma, precisam reconhecer seus limites, buscar aconselhamento, caminhar
em comunhão com outros líderes e romper com o isolamento que tantas vezes
antecede o adoecimento ministerial (Provérbios 11:14; Hebreus 3:12–13). Membros
precisam redescobrir que a igreja não é uma empresa nem um clube, mas uma
família espiritual, onde ninguém manda sozinho e todos se submetem a Cristo
(Efésios 5:21). Estruturas transparentes, liderança plural, ensino bíblico
consistente e uma espiritualidade marcada pela humildade são caminhos concretos
para restaurar a saúde da comunidade.
A reflexão final que se impõe à igreja não é “quem manda aqui?”, mas “quem é o Senhor aqui?”. A
resposta bíblica permanece a mesma: “Um só é o vosso Mestre, e vós todos
sois irmãos” (Mateus 23:8). Quando essa verdade governa corações e
práticas, não há espaço para donos da igreja, apenas para servos do Reino.
Franklin✍
Bibliografia / Sugestão de Leitura:
●Bíblia de Estudo Thompson: Cadeia
temática de referências cruzadas – Frank Charles Thompson
●Dicionário Vine de palavras e
expressões do Novo Testamento – W. E. Vine
●Teologia sistemática: atual e
exaustiva – Wayne Grundem
●Sob Controle - Assédio Moral no Âmbito Religioso - Sandra
Regina Librelon
●Abuso espiritual nas igrejas evangélicas: enfrentando a
realidade e buscando a cura
● Estante
de Livros e Livretos
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