Afinal de contas, Jesus era de direita ou de esquerda?
"Disse Jesus: Meu Reino não é deste mundo..." (João 18:36)
Apesar das recentes polêmicas envolvendo o autor da
frase e de não concordar com todas as suas posições teológicas, é inegável sua
capacidade intelectual e a precisão cirúrgica com que identifica a apropriação
seletiva da figura de Jesus ao longo do tempo.
A leitura de seus ensinamentos (de Jesus), muitas
vezes, não parte de um compromisso com a totalidade da mensagem, mas de
recortes convenientes que reforçam posições pré-existentes. Essa tentativa de
apropriação indevida simplifica e empobrece um debate complexo e ético, muitas
vezes difícil de compreender justamente por reduzi-lo a slogans ideológicos,
esvaziando sua capacidade real de provocar mudanças profundas.
Ao enfatizar apenas dimensões específicas, seja a
justiça social ou a moralidade individual, corre-se o risco de distorcer o
núcleo da mensagem, que simultaneamente critica estruturas sociais injustas e
exige transformação nas atitudes, valores e intenções individuais.
A fala de Jesus, quando analisada de forma integral,
não se encaixa em nenhum espectro político moderno; ao contrário, ela
frequentemente confronta ambos, expondo incoerências, hipocrisias e
reducionismos.
Ignorar essa complexidade não é apenas um erro
interpretativo, mas também uma estratégia funcional desonesta: simplificar para
instrumentalizar. O desafio, portanto, não está em reivindicar Jesus para um
lado, mas em reconhecer o quanto sua mensagem resiste a esse tipo de
apropriação e exige uma revisão crítica de pressupostos em qualquer posição
ideológica.
A crítica que aqui faço é decorrente da realidade
política brasileira contemporânea: a corrupção está enraizada em partidos e
instituições dos três poderes, afetando tanto representantes de esquerda quanto
de direita. Escândalos recentes mostram que interesses pessoais e partidários
frequentemente se sobrepõem ao compromisso com a ética e o bem público,
reforçando a necessidade de vigilância, independência e intolerância do cidadão
frente a qualquer instrumentalização do evangelho de Jesus em narrativas
ideológicas.
P.S.: Comentário baseado em uma fala de Ed René Kivitz, apresentada no episódio “As Quatro Faces de Jesus” do programa Linhas Cruzadas, da TV Cultura. Vídeo disponível em: https://youtu.be/foYfAL9R08M?si=1RCdU77ZpLVO3Epm
