Se fomos sarados, por que ainda adoecemos

Isaías 53:10

Essa pergunta surge de forma natural quando lemos Isaías 53 e, muitas vezes, ela carrega dor, frustração e até culpa. Se Jesus sofreu por nós, se fomos sarados por suas pisaduras, por que o sofrimento ainda faz parte da vida do crente? A resposta não vem de frases isoladas, mas da própria lógica bíblica sobre a cruz, o sofrimento e o tempo de Deus.

Isaías afirma algo que causa desconforto em muitas pessoas: “ao Senhor agradou moê-lo, fazendo-o enfermar” (Isaías 53:10). Essa declaração não significa que Deus tenha prazer no sofrimento em si, mas que a dor do Servo fazia parte de um plano maior de redenção. O sofrimento não foi um acidente, nem resultado de falta de fé do Servo. Pelo contrário, foi expressão de obediência perfeita à vontade de Deus. Isso desmonta a ideia de que sofrimento é sempre sinal de erro espiritual.

O próprio Jesus, cumprimento desse texto, viveu uma vida sem pecado e, ainda assim, foi chamado de “homem de dores” (Isaías 53:3). Ele chorou (João 11:35), sentiu angústia profunda (Mateus 26:38) e sofreu fisicamente até a morte. Se o Filho de Deus não foi poupado da dor, a Bíblia nunca prometeu que seus seguidores seriam. O que Jesus prometeu foi presença, sustento e sentido no sofrimento, ao dizer: “no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo” (João 16:33).

A ideia de que a fé verdadeira elimina toda enfermidade não encontra apoio nas Escrituras. O apóstolo Paulo, homem cheio de fé e usado poderosamente por Deus, fala de um “espinho na carne” que não lhe foi removido, mesmo após orações insistentes (2 Coríntios 12:7–9). A resposta de Deus não foi cura imediata, mas graça suficiente. Isso mostra que a obra de Cristo não tem como objetivo principal nos livrar de toda fraqueza agora, mas nos sustentar nela.

A própria experiência da igreja primitiva confirma isso. Timóteo sofria de frequentes enfermidades (1 Timóteo 5:23). Trófimo foi deixado doente em Mileto (2 Timóteo 4:20). Epafrodito esteve gravemente enfermo, quase à morte (Filipenses 2:27). Nenhum desses casos é tratado como falta de fé. Pelo contrário, o sofrimento aparece como parte da caminhada cristã em um mundo ainda marcado pelo pecado.

Isaías 53:10 também afirma que, por meio desse sofrimento, o Servo ofereceria “a sua vida como oferta pelo pecado” (Isaías 53:10). Isso mostra que o foco do texto não está na eliminação da dor humana, mas na solução do problema espiritual que nos separava de Deus. A redenção já foi conquistada, mas seus efeitos completos ainda não foram plenamente manifestos. Vivemos entre o “já” da salvação e o “ainda não” da glorificação, como ensina o apóstolo Paulo ao falar da criação que geme aguardando a redenção final (Romanos 8:22–23).

A Bíblia nunca nega que Deus possa curar hoje. Ele continua soberano e poderoso para agir, e somos encorajados a orar pelos enfermos (Tiago 5:14–15). Mas também somos ensinados a confiar em Deus quando a cura não vem, certos de que o sofrimento não é sinal de abandono, mas pode ser instrumento de amadurecimento, como afirma Pedro ao dizer que as provações fortalecem a fé (1 Pedro 1:6–7).

Portanto, adoecemos não porque a cruz falhou, mas porque ainda vivemos em um mundo caído. A cruz não removeu todas as consequências do pecado neste tempo, mas garantiu que nenhuma dor será inútil e nenhuma lágrima será desperdiçada. A esperança cristã não está na ausência de sofrimento agora, mas na certeza de que ele não terá a palavra final.

 

Pense nisso...

A fé não nos livra de toda dor, mas nos impede de sofrermos sem esperança.

A cruz não nos isenta do sofrimento; ela nos sustenta nele.

 

 

Franklin

 

Bibliografia:

●Bíblia de Estudo Thompson: Cadeia temática de referências cruzadas – Frank Charles Thompson

●Bíblia de Estudo de Genebra – Cultura Cristã

●Comentário Bíblico Wiersbe: Vol. 1 Antigo Testamento / Vol. 2 Novo Testamento – Warren W. Wiersbe

Teologia sistemática: atual e exaustiva – Wayne Grundem


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