Jesus S/A

    “Porque o amor ao dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé.” (1Timóteo 6:10) 

    Jesus de Nazaré nunca abriu empresa, nunca lançou marca, nunca vendeu ingresso, nunca negociou unção, nunca cobrou para curar, ensinar ou perdoar. Ainda assim, hoje seu nome é estampado como selo de qualidade em um mercado bilionário que transforma fé em produto, púlpito em palco e discípulos em consumidores. “Jesus” tornou-se uma marca que dá lucro, e isso deveria nos causar profundo constrangimento espiritual. O mesmo Cristo que não tinha onde reclinar a cabeça (Mateus 8:20) é usado para justificar cachês exorbitantes, agendas fechadas a sete chaves, camarins exclusivos e contratos que fariam corar o jovem rico que se retirou triste por amar mais o dinheiro do que o Reino (Mateus 19:21–22).

    Cantores são tratados como celebridades, pregadores como estrelas, líderes como CEOs espirituais e coachs. Igrejas disputam nomes como quem disputa atração internacional, enquanto comunidades simples fazem “vaquinhas” para pagar o “servo de Deus”. O problema não é sustento ministerial, pois “digno é o trabalhador do seu salário” (Lucas 10:7) e “assim ordenou também o Senhor aos que anunciam o evangelho, que vivam do evangelho” (1 Coríntios 9:14). O escândalo está no excesso, na ostentação, na incompatibilidade gritante entre o estilo de vida de Jesus e o de muitos que falam em seu nome. Paulo abriu mão de direitos legítimos para não criar tropeço ao evangelho (1 Coríntios 9:12), trabalhou com as próprias mãos (Atos 20:33–35) e advertiu que a piedade não é fonte de lucro (1 Timóteo 6:5–6). O que diria o apóstolo ao ver o Reino reduzido a planilhas, metas financeiras e marketing agressivo?

    Dentro dos templos, multiplicam-se bugigangas sacralizadas: águas “abençoadas”, óleos “especiais”, lenços, pulseiras, rosas, sal grosso gospelizado, tudo embalado com linguagem bíblica fora de contexto. É a repetição moderna daquilo que os profetas denunciaram: “Os sacerdotes ensinaram por interesse” (Miqueias 3:11) e “fizeram da casa de Deus uma casa de comércio” (João 2:16). Jesus não negociou com os vendedores do templo; Ele virou as mesas (Mateus 21:12–13). Pedro não ofereceu amuleto; declarou: “Não possuo prata nem ouro” (Atos 3:6). A fé bíblica aponta para arrependimento, cruz, renúncia e obediência (Lucas 9:23), não para barganha espiritual.

    As campanhas que envolvem dinheiro prometem prosperidade em troca de sacrifício financeiro, explorando a dor, a ignorância bíblica e o desespero de pessoas simples. O evangelho é reduzido a técnica de enriquecimento, quando Jesus alertou que não se pode servir a Deus e às riquezas (Mateus 6:24) e que a vida de um homem não consiste na abundância de bens (Lucas 12:15). A fé passa a ser medida pelo valor do envelope, e não pelo fruto do Espírito (Gálatas 5:22–23). É uma manipulação sutil, mas cruel, que inverte a lógica do Reino, onde os últimos são os primeiros (Mateus 20:16) e onde o maior é aquele que serve (Marcos 10:43–45).

    Os megashows em estádios movimentam milhões, com iluminação, efeitos, produção impecável, enquanto o Cristo crucificado é apresentado como trilha sonora de um espetáculo. Não se trata de demonizar música ou eventos, mas de perguntar honestamente se o centro ainda é o Cordeiro ou o entretenimento. Paulo temia anunciar a cruz “com sabedoria de palavras” para que ela não fosse esvaziada (1 Coríntios 1:17). A cruz sempre foi escândalo (1 Coríntios 1:23); quando deixa de incomodar e passa a vender, algo está profundamente errado.

    Apologistas sérios, como Augustus Nicodemus Lopes, Paulo Romeiro, Franklin Ferreira, Renato Vargens, Sezar Cavalcante, entre outros, conhecidos por sua fidelidade às Escrituras e por uma postura pública marcada pela sobriedade e simplicidade cristã, têm alertado que o evangelicalismo contemporâneo corre o risco de perder sua alma ao trocar discipulado por consumo religioso, teologia por motivação barata e missão por autopromoção. Eles reverberam o chamado bíblico à sobriedade no pastoreio (1 Pedro 5:2–3), à vigilância contra falsos mestres que exploram o povo de Deus com palavras fingidas (2 Pedro 2:1–3) e à centralidade de Cristo, não do mensageiro (2 Coríntios 4:5). O consenso entre esses líderes é claro: quando o evangelho passa a servir para enriquecer alguns e manter muitos espiritualmente dependentes, ele já foi profundamente distorcido.

    A crítica, porém, não pode parar na denúncia. Há caminho de retorno. A solução começa com arrependimento genuíno (Atos 3:19), com a redescoberta da simplicidade do evangelho (2 Coríntios 11:3) e com líderes que tremem diante da Palavra, não diante da queda de arrecadação (Isaías 66:2). Igrejas precisam voltar à mesa da Palavra e da comunhão (Atos 2:42), à generosidade voluntária e discreta (2 Coríntios 9:6–7; Mateus 6:3–4), ao cuidado dos pobres, órfãos e viúvas (Tiago 1:27). Pregadores precisam lembrar que prestarão contas ao Supremo Pastor (Hebreus 13:17; 1 Pedro 5:4), e membros precisam deixar de idolatrar homens (1 Coríntios 3:4–7).

    Jesus não é marca, é Senhor (Filipenses 2:9–11). Ele não vende salvação; Ele se entrega (Marcos 10:45). Enquanto o mercado religioso prospera, o chamado de Cristo continua o mesmo: “Buscai primeiro o Reino de Deus” (Mateus 6:33). Tudo o que transforma esse Reino em negócio precisa ser confrontado à luz da cruz, onde o Filho de Deus foi exposto em vergonha para nos reconciliar com o Pai (Colossenses 1:20). O evangelho não precisa de maquiagem, palco ou preço. Ele precisa de verdade, arrependimento e amor. O resto é ruído lucrativo que passa; a Palavra do Senhor permanece para sempre (1 Pedro 1:24–25).


Franklin

Bibliografia / Sugestão de Leitura:

    ● Bíblia de Estudo Thompson: Cadeia temática de referências cruzadas – Frank Charles Thompson
    ● Comentário Bíblico Wiersbe: Vol. 2 Novo Testamento – Warren W. Wiersbe
    Intimidade versus Performance
    Culto ou Espetáculo
    Evangelho ou Luxo? A Verdade sobre a Teologia da Prosperidade